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+ Livro – História Natural da Ditadura

“História Natural da Ditadura” se serve do romanesco para transitar entre Walter Benjamin, Hitler e Fidel 

por CRISTOVÃO TEZZA – Folha de S. Paulo, Mais!, 3/12/2006

Um memorial das ditaduras do século 20, recortado pela lembrança pessoal, que, a partir da enumeração de dezenas de fatos marcantes, pensa e repensa circularmente os sentidos que deles se podem extrair. Mas não um olhar com pretensão de ciência ou filosofia puras; antes, uma percepção contaminada pela própria presença, corpo e alma, dando-lhe a consistência das coisas vivas.
E, finalmente, a vitalidade da linguagem romanesca, capaz de lidar com vozes outras sem se entregar inteiramente ao objeto. Eis aqui uma pálida tentativa de classificar esta fascinante “História Natural da Ditadura”, de Teixeira Coelho. Numa palavra, um ensaio escrito por um narrador.

Sentindo-se em casa
Quem quer que nos últimos 50 anos tenha transitado pelas velhas e novas utopias com livros, armas ou pensamentos vai se sentir em casa – no bom e no mau sentido – nas páginas deste livro.
No primeiro momento (“Portbou”), a visita a um monumento sob um vento feroz em “lugar nenhum” é a deixa para acompanharmos o filósofo Walter Benjamin tentando ir da França à Espanha, em 1933, até que amanhecesse morto num quarto de hotel.
Em seguida (“Sur”), contamos os mortos da ditadura na Argentina por meio dos recortes de jornal, sob o título “Nosotros No Sabíamos”, caprichosamente colecionados pelo artista plástico León Ferrari. Na terceira parte (“30”), estamos no Brasil, em 1964, e somos estudantes, jovens e cheios de planos. Em “Teoria da Tristeza”, as idéias de “sursis” – estado de exceção, medidas provisórias, morte e suicídio – transitam entre a filmografia de Eric Rohmer, os quadros de Turner, Whistler e Monet, os tempos de Salazar, Hitler, Mussolini, Stroessner, Stálin, Fidel, mais o fantasma de Aldo Moro, a memória do Dops, e em tudo paira uma consciência narrativa que avança aparentemente sem sistema. E na última parte, ou “Livro”, como a própria narração classifica os textos, um crítico, sob um tom entre o irônico e o farsesco, assumindo a “vergonha de narrar” que é um dos traços centrais do que se convencionou chamar pós-modernismo, avalia as quatro partes anteriores como se fossem cinco, o que inclui a própria crítica como elemento integral da obra, afirmando uma espécie de geometria (“quincunx” -o narrador é um erudito) -aliás, já prometida pelas amarrações incidentais que marcam o livro do começo ao fim.

Álbum de fotografias
E o memorial é também um “álbum de fotografias”, como nas obras do alemão W.G. Sebald (1944-2001), pontuado de “selos” em preto-e-branco que funcionam menos como ilustrações e mais como índices do texto, na sua ostensiva simplicidade.
Um dos tópicos da obra é o conceito das coincidências, o que reitera a “estética da coincidência” que parece crescer hoje na literatura e no cinema, à falta de sistemas que dêem conta de nós mesmos. É preciso atribuir sentido ao império dos fragmentos, desta vez sem contar com o totalitarismo mental das grandes interpretações do mundo.
No esforço desse sentido impossível, a estética ocupa um espaço único, como se fosse ela em si uma categoria ética, levando “à conclusão inevitável de que a tônica é dada sempre pela estética que, corretamente desdobrada, conduzirá à ética adequada”.
Entramos aqui quase no território de uma nova utopia, em que o evento aberto da vida (território da ética) se funde com o seu recorte observado (território da estética), sob a pressão do “corretamente” e do “adequado”.
O suicídio como o único problema realmente sério da filosofia – a proposta de Albert Camus em “O Mito de Sísifo” – é outro dos tópicos centrais deste memorial, do mistério de Benjamin aos mortos todos que se empilharão no século.

Presença viva
Mas, como frisamos, trata-se de um narrador, não de um ensaísta, e essa é a chave do livro. Acompanhamos uma presença viva que, pela circularidade obsessiva das lembranças, o seu caráter simultâneo e seu instrumental teórico (também ele parte integrante da vida), vai corroendo, nas vísceras dos fatos, os pressupostos das teleologias políticas que -na via da Revolução Francesa, da guilhotina, do terror e das maquinações generosamente servidas por sonhos e teorias totalizantes que suspendem o presente em nome da abstração do futuro- vieram e vêm amontoando cadáveres ao longo da história.
A idéia de que o “estado de exceção” tem sido de fato permanente – no Brasil, o narrador frisa, marcado pelo império das medidas provisórias que destruíram o Congresso – consubstancia o pessimismo do livro, que será, enfim (agora é o resenhista quem conclui), uma libertação, uma reserva vital de anarquia (no seu sentido etimológico, “sem comando”), que nos permita respirar.

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Publicado às dezembro 17, 2007 por em Crítica e marcado , .
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